Crítica: Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe

Todo mundo já ouviu falar da história de Pedro, discípulo e apóstolo de Jesus, que negou conhecer o mestre antes do galo cantar 3 vezes. “Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe” tem o título bem parecido com a narrativa bíblica, mas o enredo está bem longe de ser igual. A frase que dá nome ao filme vem de um conto de Clarice Lispector, que se chama “Feliz Aniversário” e que inclusive foi um dos lugares onde o diretor Aaron Torres se inspirou.

Na trama, o personagem Inácio, vivido pelo ator Fernando Alves Pinto, sofre de esquizofrenia. Ele mora com o pai, Guilherme (Tião Ribas D’Ávila) e a mãe, Zaira (Catarina Abdalla), em um prédio da Zona Sul carioca. Ali é também onde o pai trabalha como zelador e onde Inácio se esforça para ser um bom porteiro. Quando seu pai adoece, precisa sair do emprego e não consegue mais sustentar a família, Inácio passa a ser responsável pelas despesas da casa. Pouco tempo depois, Guilherme morre e a viúva fica com medo de perder o apartamento onde moram. Os conflitos entre mãe e filho aumentam e a relação dos dois começa a ficar insustentável. A situação piora quando Zaira descobre que Inácio é gay e que está obcecado por um dos moradores.

O roteiro trata de questões que ainda são tabus para a sociedade: a esquizofrenia e a homossexualidade que são características do protagonista. Os pontos de virada e de conflitos são muito bem feitos. O que deixa o roteiro bem amarrado. Aaron Torres, que além de diretor é produtor e também roteirista do longa, conta que criou os personagens com base em vizinhos dele de fundo, de um prédio onde morava.

Os atores Catarina Abdalla e Fernando Alves trabalham os personagens com grande primor. Sensibilidade e intensidade se fundem na interpretação.

A concepção fotográfica está incrível. Os planos usados deixam as cenas muito bonitas, que cativam o espectador desde o início do filme até o final. Uma curiosidade é que o longa é todo muito escuro. O trabalho com a iluminação que existe é mais voltado para a cor verde. E o objetivo dessa “escuridão esverdeada” é passar a sensação de solidão do personagem, de agonia e de opressão que rondam aquele apartamento. É transmitir ao espectador o sentimento dele naquele apartamento pequeno e apertado, como uma representação da falta de liberdade de ser quem ele quer ser; de se sentir pequeno e nada amado pela mãe; de não ser compreendido pelas outras pessoas por viver num mundo só dele. Além da cor, os planos de filmagem usados também ajudam a trazer à tona todos esses sentimentos.

A trilha foi também escrita por Aaron e interpretada por Ney Matogrosso. As músicas são comuns, não têm nada de extraordinário, mas são bem executadas.

Porém, mesmo com toda a parte técnica tendo sido feita de forma impecável e dos atores terem feito um trabalho primoroso, a história não tem muita novidade e nem nada que chame a atenção ou que prenda o público. O enredo é fraco. Fora isso, as cenas são bastante demoradas, o que deixa o filme muito lento. Por ser escuro na maior parte do tempo, ficar tentando “enxergar” o filme a cada instante torna-se muito cansativo. Isso sem falar no título gigante, que sem dúvida pode confundir bastante.

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