“Obrigado por me manter viva”

Imagens de sereias repetem-se ao longo de “Tully” (2018), nova parceria entre o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody (“Juno”“Jovens Adultos”). Apresentadas em desenhos animados, reality-shows ou até mesmo sonhos, as criaturas mitológicas ocupam sempre um lugar de liberdade. Livres para nadar e cantar, desprendem-se, portanto, da rigidez do cotidiano e aproximam-se, em certa medida, da juventude.

Mãe pela terceira vez, Marlo (Charlize Theron), ao contrário, acumula obrigações. Dividida entre as múltiplas tarefas do dia a dia, priva-se de sono e reserva pouco tempo para si. Desesperada, resolve aceitar a proposta do irmão, Craig (Mark Duplass), e contrata uma babá noturna. Apesar da desconfiança inicial, o trabalho da jovem e misteriosa Tully (Mackenzie Davis) promove enorme mudança em sua vida.

Antes da chegada de Tully, Marlo experimentava um verdadeiro horror, traduzido na construção audiovisual da rotina. Enquanto a dinâmica montagem de Stefan Grube (“Rua Cloverfield, 10”) acavala atividades diárias, a igualmente ágil mixagem de Chris Duesterdiek (“O Regresso”) cria um pesadelo sonoro ao sobrepor o choro do recém-nascido a um remix da música “Tiergarten”, de Rufus Wainwright. Não só a melodia, porém, produz significado, mas também a letra. “Won’t you walk me through it all?” – Você não vai passar por tudo isso comigo? -, pergunta, como se a protagonista confrontasse o ausente marido, Drew (Ron Livingston).

As demais canções, por sinal, têm o mesmo efeito. Logo na abertura, “Ride Into the Sun”, da banda The Velvet Underground, discute o isolamento gerado pelas capitais urbanas. Disposta junto a uma cena de Marlo escovando o “peculiar” filho Jonah (Asher Miles Fallica), ela volta o olhar para a supressão das diferenças em um mundo regido pela categoria meio-fim. Ainda que não se comprove qualquer eficácia terapêutica, a escovação acalma o menino. Funciona, assim, como um espaço de resistência, uma valorização da improdutividade em contraste com o ideal utilitarista de sua escola. De maneira análoga, opera “You Only Live Twice”, versão do tema de James Bond cantada pela dupla Beulahbelle. Ao defender, em seus versos, uma vida para si e outra para os sonhos (“One life for yourself And one for your dreams”), a música reafirma a importância da fabulação e potencializa a metáfora da sereia.

Após o encontro entre as duas mulheres, Diablo Cody reconstrói a rotina de Marlo, impactada pela juventude mitológica de Tully. Se, antes, alimentava os filhos com pizza congelada, depois, prepara frango assado e legumes. Se, antes, não explorava a sexualidade, depois, resgata antigas fantasias. Se, antes, faltava-lhe, enfim, autoestima, depois, torna-se melhor amiga de si mesma. Nesse sentido, Charlize Theron (“Monster: Desejo Assassino”“Mad Max: Estrada da Fúria”) impressiona. A atriz sul-africana, em constante troca com a também ótima Mackenzie Davis (“Blade Runner 2049”“Perdido em Marte”), entende perfeitamente a gradual transformação da personagem. O libelo ao amor próprio, no entanto, perde em parte sua força quando o roteiro evidencia os subtextos. A sutileza metafórica dá, então, lugar a um lamentável direcionamento interpretativo. Terminada a sessão, contudo, permanece a beleza dos momentos anteriores.

No comando de “Tully”, por fim, Reitman e Cody retomam as temáticas de seus dois outros filmes, mas sabem reinventá-las. A gravidez de “Juno” (2007) soma-se, desse modo, à protagonista de meia-idade de “Jovens Adultos” (Young Adult, 2011) e produz um singular resultado, ritmado por uma expressiva trilha sonora e conduzido por ricas atuações. Theron, mais uma vez no papel principal, destaca-se tanto na comédia – o karaokê de “Call Me Maybe” talvez seja o melhor exemplo disso – quanto em um drama profundamente humano.

* O filme estreia dia 24, quinta-feira.

 


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Luiz Baez

Carioca de 24 anos. Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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