Que a Netflix cria boas séries originais é um fato, mas talvez esteja em uma fase conturbada. Apesar de acertar ao cancelar “Girlboss”, que não houve tanta importância para o público, a empresa errou ao cancelar “The Get Down” e “Sense8”. Agora, a Netflix renovou “Friends From College”, que não foi tão bem aceita pelo público pela falta da parte cômica, bem como por apresentar uma trama machista. Algo que o streaming parece pecar ainda, é na questão da representatividade.

Nem sempre a Netflix erra, ela apenas leva um tempo para acertar. Prova disso é “Orange Is The New Black”, que inicialmente sendo centrado na história de Piper Chapman. Contudo, na prisão de Litchfield, outras histórias precisavam ser contadas. A cena da morte da personagem Poussey, interpretada por Samira Wiley, aconteceu com o jovem Eric Garner, em Nova Iorque, no ano de 2014. O acerto é ter espaço para discussões raciais e machismo dentro de um presidiário feminino.

“Sense8”, ao ser cancelada, causou uma revolta nos fãs. Toda a trama acertava ao representar LGBTs, principalmente através de dois personagens: Nomi e Lito. Nomi (Jamie Clayton), é uma mulher trans. Ela sofre rejeição de sua mãe, que não a aceita e nem ao seu relacionamento, mas essa premissa fica em segundo plano. O foco é nas angústias da personagem durante a descoberta de seu gênero.

Lito (Miguel Ángel Silvestre), é um ator mexicano homossexual, que sempre escondeu sua sexualidade da mídia e de seus fãs. Sua história procurava mostrar a repercussão da orientação sexual de uma pessoa, falava sobre não se sentir aceito e precisar se esconder, situação que ocorre diariamente com vários homossexuais. Durante o episódio de natal, a série mostrou uma cena de Lito com sua mãe, onde ela dizia que o aceitava, independente de qualquer coisa. Mais uma vez, a Netflix acertou com a trama, mas cancelou a mesma por questões financeiras.

Em “13 Reasons Why”, o streaming procurou explorar um público mais jovem, que estivesse passando pelo atormentado período do ensino médio. A jovem Hannah Baker (Katherine Langford), se suicida e deixa treze fitas cassetes, cada uma com um motivo que a levou a cometer tal ato. As fitas mostram diversas situações, como bullying, machismo, estupro e, por fim, o “esgotamento” psicológico. A trama levantou muito bem todos essas questões, que são vividas diariamente por diversas pessoas, mas são menosprezadas.

Outra trama importante do ano foi “Cara Gente Branca”. A série mostrava a história de Samantha, a Sam (Logan Browning), que através do seu programa de rádio na faculdade, falava sobre todo o racismo dentro da universidade. Uma das cenas mais pesadas da trama, é durante uma festa universitária, onde o personagem Reggie (Marque Richardson), se envolve em uma briga e tem uma arma apontada para si por um policial, numa situação clara de racismo e abuso moral. Um acerto incrível da Netflix.

“Girlboss” inicialmente pareceu ter uma boa premissa, que logo foi derrubada pela questão elitista que circundava a protagonista Sophia Amoruso, interpretada na série por Britt Robertson. Sophia apresentou na trama um comportamento infantil, mimado, egoísta e que causou diversos questionamentos raciais, uma vez que essas atitudes foram aplaudidas.

“Friends From College” também foi um erro da Netflix. Uma narrativa completamente machista desagradou muito o público, além da falta da parte cômica. Todavia, com a recente renovação da trama, fica a dúvida de que caminho o streaming parece seguir. A questão da representatividade precisa estar mais presente, para que certas discussões não caiam no esquecimento.

Espera-se que a Netflix não esqueça de focar nesse ponto para produções futuras, uma vez que essas discussões ganham cada vez mais espaço no audiovisual.