Crítica: Julia e a Raposa

A angústia de perder um ente querido geralmente é sentida durante toda a vida e uma família pode entrar em pedaços após a morte inesperada de um de seus membros. Em “Julia e a Raposa” , acompanhamos a atriz Julia (Umbra Colombo) que vai até uma casa de férias junto com sua filha Malena (Victoria Castelo Arzubialde) após o luto pelo marido, vítima de um acidente de carro, ser atenuado. O local está praticamente em ruinas por causa do longo período de abandono que sofreu, já que elas só o frequentavam quando o homem ainda estava vivo. Ali passaram por momentos de felicidade que não são repetidos nessa revisita, principalmente pela mãe sempre mal humorada e triste. A garota ainda consegue ter momentos de diversão andando a cavalo ou visitando um amigo que mora em uma vila próxima da casa.

Julia diz que vai vender a casa, por outro lado, Malena não quer se livrar de um dos últimos locais que passou com seu pai, gerando o primeiro embate entre elas.  Brigam por qualquer coisa e, por isso, é possível traçar as características de suas personalidades. Parece que a mulher não consegue se conectar sentimentalmente com a filha. Ela é atriz e fez sucesso no passado. Foi um espírito livre que não tinha qualquer obstáculo a sua frente e, agora, não consegue se livrar de um. A raposa do título é por causa das constantes visitas de um desses animais a Julia, que o alimenta algumas vezes e se identifica com sua liberdade selvagem, a vagar pelo mundo sem qualquer impedimento.

A desordem da casa é a mesma que Julia sente dentro dela mesma e, após receber um convite para fazer uma viajem até a Colômbia a fim de encenar uma peça, fica ainda mais incerta do que deve ou não fazer. Malena segue sendo a única a querer continuar com a família unida, mesmo com as memórias doloridas da morte do pai e com a mãe em constante crise.

A diretora Inés María Barrionuevo filma cada plano como se fosse o último, alongando o tempo em tela. A cadência do filme é importante para impor os momentos de reflexão aos personagens, no entanto, quando um amigo de Julia vai visitá-la, ela parece receber um sopro de vida e a ação toma conta da inércia. Gaspar (Pablo Limarzi) conhece Julia há muito tempo e é o responsável pela tal peça na Colômbia. O visitante afirma a necessidade da presença masculina na vida daquela mulher, seja para satisfazê-la sexualmente ou apenas para cuidar da filha. Malena, no primeiro momento, desconfia daquele homem que chegou sem avisar, mas, com o passar do tempo, se acostuma e até começa a gostar de sua companhia. A afeição da garota é inocente. É Julia   que parece ter outras intenções em unir Gaspar à filha. As suas ações podem ser discutidas, porém, é com honestidade que Julia toma suas decisões. “Julia e Raposa” agrada como muitos dos filmes argentinos visto nos últimos anos, mesmo que alguns elementos de sua trama sejam amargos para muitas pessoas.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 

Crítica: Julia e a Raposa
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