Crítica: Vice

“Se você tem poder, as pessoas sempre vão tentar tirar de você.”

Em primeiro plano, um coração se posta defronte à câmera. Não se trata, no entanto, de um elemento qualquer. Por trás de seu escurecido tom, esconde-se muito mais que uma saúde debilitada. O órgão, popularmente associado a virtudes como generosidade e benevolência, perdera não só as funções vitais, mas, principalmente, o vermelho característico. No lugar do colorido rubro, manchas negras denunciam uma certa podridão.

Podre, em sentido literal, quer dizer deteriorado. Desse modo encontra-se o miocárdio de Dick Cheney (Christian Bale), acometido por cinco infartos. Podre também se refere, porém, a algo moralmente condenável. Sob esse prisma, o adjetivo define a conduta do antigo Secretário de Defesa e vice-presidente dos Estados Unidos, inescrupuloso protagonista de “Vice” (2018).

Cheney, figura central na história contemporânea, apresenta-se a partir de um narrador desconhecido: dele, a princípio, sabe-se apenas o nome. Não há nada, contudo, que Kurt (Jesse Plemons) desconheça sobre Dick. Onisciente e onipresente, o jovem militar comenta toda a trajetória do líder. Com a introdução dessa personagem, tão misteriosa quanto irônica, Adam McKay (“A Grande Aposta”) clarifica sua total discordância com o protagonista.

McKay, todavia, não para por aí. Preocupado em salvaguardar suas convicções políticas, o cineasta usa e abusa de técnicas de distanciamento. Além da narração em terceira pessoa, alguns recursos experimentados em “A Grande Aposta” se repetem, e outros aparecem pela primeira vez. Como no predecessor, por exemplo, imagens de arquivo ilustram o contexto da narrativa. Se, antes, os videoclipes atestavam um culto ao dinheiro, agora, a publicidade viral – o “wassup” da Budweiser – e os reality-shows SurvivorAmerican Idol, entre outros – mascaram a barbárie.

Outro artifício repetido, o emprego de celebridades para explicar termos técnicos não alcança a mesma eficácia do longa anterior. “Vice” não trata, afinal, de uma complexa crise financeira como a elucidada por Selena Gomez. A presença de Alfred Molina resulta, logo, antes em enfadonha redundância do que no esperado alívio cômico. Já a aparição de Naomi Watts, intérprete de uma repórter da Fox News, funciona como uma interessante crítica ao conservadorismo midiático.

Não obstante a promissora discussão, as excessivas ressalvas de McKay rapidamente a frustram. Buscando esquivar-se de humanizar suas personagens, o cineasta faz questão de ironizar tal estratégia. Para tanto, cria uma constrangedora sequência na qual Dick e Lynne Cheney (Amy Adams) recitam diálogos shakespearianos. Ao longo de outra cena, por sua vez, o casal conversa sobre uma marca de enxaguante bucal. Há, ainda, um falso final no meio do filme, com cartelas de um happy end impossível. Em todos os casos, manifesta-se uma desesperada tentativa de romper com a dramatização. As sucessivas reiterações, porém, promovem efeito contrário: no lugar da comédia, o cansaço.

Se, de todo modo, resta algum riso sincero, muito se deve à competência do elenco. Christian Bale, cujo comprometimento supera as próteses, lidera uma equipe composta, além dele, por Steve Carell – no papel do ex-Secretário de Defesa Donald Rumsfeld – e Sam Rockwell – no papel do ex-presidente George W. Bush. Junto, o trio reverte a seu favor o tom caricatural, em bufônicas performances. No outro extremo, Amy Adams sustenta uma personagem mais complexa, à qual não se negam nem o passado e tampouco as motivações futuras – decisão acertada, vale mencionar.

* O filme estreia dia 31 de janeiro, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Imagem Filmes

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